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Jornal Diário de Suzano - 01/04/2025
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CAMARA SUZANO
Coluna

Sou riso

13 janeiro 2022 - 05h00

Gente, olha só eu sou Palhaço, Payaso, Pagliacci, Clown, ou até brincante, paspalho, bobo e todos os derivados de pária que vocês possam imaginar. Essas são algumas das formas de me apresentar. De dizer quem eu sou. Dizer que sou riso. Vindo do Jardim Graziela - e voltando pra lá - aqui na província de Suzano nasci, cresci e fui criado. Não escolhi a cidade, nem o bairro, mas escolhi a comédia, a brincadeira e a bobagem como pesquisa, profissão, procissão e legado. 
Aprendi a rir em casa, meus pais sempre gostaram de rir na frente da tv ou debaixo de uma precária lona do Circo do Palhaço Peteléco que uma vez por ano ia até o bairro, parodiar. Peteléco não era só o Palhaço, ele era o trapezista, o equilibrista e às vezes o bilheteiro. Nessa dinâmica não sou só palhaço. 
Palhaço é um último estágio, um demérito conquistado depois de passar por alguns degraus na hierarquia de perder. Escrevi comédia na escola, dancei por dinheiro na frente da loja, animei festinha de criança e até casamento. Hoje sou palhaço no palco pitoresco de uma lona de caminhão recortada e ressignificada por todo o país. 
Ser palhaço é a coisa fácil mais difícil do mundo. É um despir-se e impregnar-se de humanidade tão constante que alguns de nós parecem ter que parar uma locomotiva com vagões imensos carregados de idéias, e outros de nós somos a tal locomotiva, louca e desenfreada, descendo a ladeira mais famosa da sua memória, dividindo, convidado e psicografando o desejo mais improvável de quem, assiste uma rajada de despropósitos.
Porque é disso que uma boa palhaçada é feita, de riso, dos outros, do público, sem finalidade prática que não seja rir e arrebatar. Palhaçada é tradição, é rotina que se desenrola, incansável. Um rizoma que expulsa o ar dos pulmões a força da queda que virá, pois virá. Enquanto o elemento desarranjado cai no chão, você cai na risada. Num acordo nunca assinado, quando vemos o nariz vermelho, que além de mítico, místico e disforme, é um sinal de asneira, sabemos que aquele é um lugar duvidoso. Primeiro ri-se "Caramba, ele pode fazer qualquer coisa."para preocupar-se em seguida "Caramba, ele pode fazer qualquer coisa!". Sabemos que tudo é possível. O inimaginável pesadelo de se estar pelado em público para uns, é o desejo de coragem do palhaço. 
A palhaçaria é entre outras coisas - porque são muitas - como ir a academia levantar pesos imaginários para fortalecer os músculos da cara dos outros, para respirar profundamente e carregar o riso de todos na mala ou no bolso. 
O palhaço é coisa simples pra quem é simples e um arquétipo pra quem é clássico. Clássico! A figura mequetrefe, cambaleante numa esquina, em cima de pernas de pau, fazendo bolinhas dançarem em suas mãos antes de serem atiradas no ar, desafiando assim a gravidade da situação para trazer a tona a leveza de ser e do estar aqui, não só para si, e principalmente não só para si. 
Porque sem público o palhaço é só uma ideia da subversão, com público é a práxis do incêndio cômico de todos os tempos.